sábado, 9 de julho de 2016

PEDRO FERREIRA VILLAR - Ubireval Alencar











Ele se dirigia ao Ripitete e de lá para casa na mesma hora e todas as manhãs. Cultivara o hábito de acordar cedinho e atravessar o centro da cidade até o sítio-fazenda que há anos construíra. Jamais se utilizou de bicicleta, cavalo ou automóvel. Uma caminhada saudável todas as manhãs que lhe renderam mais de noventa anos de existência. Esposo de Dona Lenita, teve muitos filhos - Renato, Wilson, Francis, Luís Carlos, Diva, Jacira, Neide, além do agregado perpétuo Zé Doido - e deixou-lhes como educação maior o modelo de vida ordeira, convivência amiga, sentido de luta e garra diária.

Seu Vida, como é popularmente conhecido, passou toda vida na entre-serras e altaneira Mata Grande, irmão de João Vilar, também de prole numerosa. Sabe como ninguém o prazer do clima frio no período invernoso, conhece o sabor das noites refrescantes na época do verão. Viveu como tantos outros as consequências das secas duradouras, navegou e pôs a salvo alguns náufragos das torrentes das águas, no período das trovoadas. O Sr. Zé Macedo, seu vizinho fronteiriço, teve de desfazer-se dos móveis a que estava agarrado para salvar-se numa dessas enxurradas que danificou todo o centro da cidade, especialmente a rua de Baixo.

Um comerciante próspero na pecuária, um micro-fazendeiro por natureza, e possuidor de comércio de tecidos de excelente qualidade que funcionava na parte térrea do sobrado que edificara e em que se instalara, ao lado do casarão do Seu Quinca Alencar, parentes da Dona Lenita. Uma vida no anonimato. Nunca se interessou pelo exercício do poder político, vivendo sua própria política de administrar a prole numerosa. Assistiu no início com estarrecimento à destruição de famílias que se ultimaram política, econômica e moralmente. Hoje veria ainda e com indiferença as facas cortando corpos jovens por aborrecimentos os mais torpes, presenciaria a troca de tiros em pleno calçamento da rua por motivos de defesa de partidarismos sem objetivos.

No imaginário da memorial Mata Grande, Seu Vida continua caminhando nas calçadas em que  tantos mortos se atropelaram só pelo fato de não terem optado por uma vereda de vida menos exacerbada. Preferiu em vida viver o encantamento dos justos, inocente ao vozerio dos que se autoproclamam. Guarda a certeza da missão cumprida. Seu Vida é um leitor do tempo e da História de sua cidade. Sem discursos, sem falações demagógicas e importunas, espelha a lição de que é preciso agir e trabalhar dignamente, lutar pela obrigação e responsabilidade que assumiu perante o mundo.

Essa é a tônica que contrasta nessa cidade premiada pela natureza, mas tão vulnerável pela especiosa ambição de jovens e imaturos políticos que pensam abarcar o mundo da noite para o dia. Do sobrado em que habita, acompanha paciente o cortejo fúnebre do amigo que se vai, ouve atento os sinos da Matriz, acena comovido aos olhares dos mais jovens e a eles se iguala na tentativa de diálogo. Esqueceu a maturidade das reflexões e quer regressar à magia do sonho e fantasia.

Fazem falta uma parada no tempo e o cuidado de se dar à escuta da lição de vida dos mais velhos, livros abertos à compreensão dos reais valores da existência. Homens e mulheres que estão nos deixando a proposta política mais convincente da existência: o prazer de viver respeitando o direito de vida do outro. E é desta cidade do alto sertão das Alagoas que com frequência acodem os piores motivos para sua encenação pública. Como se gestos outros de brios e valor nunca tivessem existido.

A nossa personagem em destaque - Seu Vida - é um dos Vilar com ramos fincados na história econômica e social de Mata Grande. Exemplo de trabalho e respeito que os seus quase cem anos lhe tributaram. Deixou descendência e descendência.

 Inclusive uma neta Denilma, agora notabilizada pela ação silenciosa, pelo trabalho efetivo de ação social, pela força de sua personalidade como mulher e de ação política - e a das mais limpas e dignas que chegou a pôr os pés  no Palácio dos Martírios (Denilma Vilar Bulhões esteve casada com o ex-Governador Geraldo Bulhões, em sua gestão como deputado federal e titular do Governo).

Denilma Vilar, Telma Bulhões, Iran Malta, entre tantos,  são netos do patriarca Vida Vilar, que está continuamente passeando pelas altas calçadas da senhorial cidade sertaneja, espelhando mais uma lição para a História de Alagoas.

 Ontem, como hoje, Seu Vida não tem pressa de concluir seu testamento, que é o autêntico testemunho de vida deixado entre seus pares, familiares e amigos conterrâneos. Deixa uma especial herança que começa a fazer inveja a muita gente.













   








terça-feira, 28 de junho de 2016

CAJU, CAJUÍNA E PRONTO - Walter Medeiros






Caju, cajuína e pronto!



--- Walter Medeiros



A natureza tem muitos encantos, mas alguns deles são verdadeiras dádivas a uma parte privilegiada. Em qualquer lugar do mundo as pessoas tem suas belezas, seus sabores devidamente localizados, mas isso não tem nem comparação com o sentimento do nordestino em seus contatos com esta natureza. Refiro-me a um fruto, uma fruta, um pseudofruto, como quiserem chamar, com que convivo desde criança e guardo de forma marcante meus melhores contatos com ele: o caju.



Longe de mim intenção de rastrear a história do caju, mas pelo que se sabe é mesmo nativo do Brasil, mais precisamente do nordeste. Aí estaria uma primeira ligação natural com o próprio cajueiro. Quando criança, em Mata Grande, a casa onde morava tinha um imenso e belo cajueiro, que nos dava uma bela sombra para brincarmos de chimbra e triângulo. Mas num dia frio de chuva torrencial, o amanhecer veio-me com a notícia de que nossa grande árvore havia sido derrubada, partida ao meio, por um raio. Lá estava nosso cajueiro prostrado.



Dali em diante, aquela beleza do fruto, amarelo, vermelho, comprido ou redondo, passei a encontrar, contemplar e saborear em outros locais. No quintal da minha casa restaram duas laranjeiras, de frutos também belos, e uma goiabeira, aquela onde uma louca da rua subia sem calcinha enquanto os meninos brincavam no chão de barro. Encontrar cajus agora era no sítio de seu Panta, no Almeida e alguns outros belos lugares do pé da serra da onça.



Depois que nos mudamos para Natal, comprávamos caju na feira do Alecrim. Mas nenhum tinha a beleza nem o gosto daqueles cajus de Mata Grande. Nem sabia naquele tempo que perto daqui ficava o maior cajueiro do mundo. E nas andanças pelas estradas e praias, foi sempre natural esse contato com o caju. No tempo que bebia bebida alcoólica, que tira-gosto! Nas lanchonetes ou em casa, que suco! E que doce!



Em meio a esse dia-a-dia, foram estimulando a festa do caju, na Redinha. Tive necessidade, certa vez, de ir ao encontro de um médico amigo, logo aonde: no cajueiro, comunidade de Touros. Na antiga policlínica, havia um funcionário conhecido em Natal inteira como caju. Em nosso meio, nosso amigo repórter fotográfico Carlos Santos – que deixou nosso convívio há uma semana – também recebeu esse apelido. Nos anos 80 do século passado, muitos devem lembrar de um trabalho de Juca Chaves que ganhou o sugestivo título de “Vá tomar caju”.



Mas a essência maior, o néctar dos mortais, vem deste fruto e passa por um processo muito interessante. Parece que ainda não descobriram quão saboroso é, haja vista a dificuldade que temos de encontrá-lo. Só vendido mesmo em poucos lugares isolados e algumas raras lojas de produtos regionais, quando não está em falta. Trata-se da cajuína, que não encontramos em nenhum supermercado, apesar de inúmeros apelos já feitos, debalde, às ouvidorias.



Pelo mundo afora tem gente que não gosta ou ainda não se acostumou com o caju. Deve ter gente que também não vai gostar nem se acostumar com a cajuína. Mas, gosto é gosto. Gosto muito.

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quarta-feira, 15 de junho de 2016

A FAMIGERADA CHIKUNGUNYA - Germano


Febre Chikungunya



Milhares de matagrandenses foram ou estão acometidos da famigerada febre. Vim passar uns dias em Mata Grande e a minha querida esposa foi picada pelo valente mosquito transmissor. Levei-a ao hospital onde foi prontamente atendida, porém,  os sintomas  não diminuíram , a febre  beirou os trinta e nove graus e meio   Os sintomas são persistentes e logo abaixo vamos conhecer trechos da matéria  que obtive em pesquisas na internet, no site MINHAVIDA.COM.

“A Febre Chikungunya é uma doença parecida com a dengue, causada pelo vírus CHIKV. Seu modo de transmissão é pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado .

Seus sintomas são semelhantes aos da dengue: febre, mal-estar, dores pelo corpo, dor de cabeça, apatia e cansaço. Porém, a grande diferença da febre chikungunya está no seu acometimento das articulações: o vírus avança nas juntas dos pacientes e causa inflamações com fortes dores acompanhadas de inchaço, vermelhidão e calor local.

A febre chikungunya teve seu vírus isolado pela primeira vez em 1950, na Tanzânia. Ela recebeu esse nome pois chikungunya significa “aqueles que se dobram” no dialeto Makonde da Tanzânia, termo este usado para designar aqueles que sofriam com o mal.

A doença, apesar de pouco letal, é muito limitante. O paciente tem dificuldade de movimentos e locomoção por causa das articulações inflamadas e doloridas, daí o “andar curvado”.

A epidemia propagou-se do Oceano Índico à Índia, onde grandes eventos emergiram em 2006. Uma vez introduzido, o CHIKV alastrou-se em 17 dos 28 estados da Índia e infectou mais de 1,39 milhão de pessoas antes do final do ano. O surto da Índia continuou em 2010 com novos casos aparecendo em áreas não envolvidas no início da fase epidêmica.


Casos importados também foram identificados no ano de 2010 em Taiwan, França, Estados Unidos e Brasil, trazidos por viajantes advindos, respectivamente, da Indonésia, da Ilha Réunion, da Índia e do sudoeste asiático.

A febre chikugunya não é transmitida de pessoa para pessoa. O contágio se dá pelo mosquito que, após um período de sete dias contados depois de picar alguém contaminado, pode transportar o vírus CHIKV durante toda a sua vida, transmitindo a doença para uma população que não possui anticorpos contra ele. Por isso, o objetivo é estar atento para bloquear a transmissão tão logo apareçam os primeiros casos.

O ciclo de transmissão ocorre do seguinte modo: a fêmea do mosquito deposita seus ovos em recipientes com água. Ao saírem dos ovos, as larvas vivem na água por cerca de uma semana. Após este período, transformam-se em mosquitos adultos, prontos para picar as pessoas. O Aedes aegypti procria em velocidade prodigiosa e o mosquito adulto vive em média 45 dias. Uma vez que o indivíduo é picado, demora no geral de dois a 12 dias para a febre chikungunya se manifestar, sendo mais comum cinco a seis dias.

O mosquito Aedes aegypti mede menos de um centímetro, tem aparência inofensiva, cor café ou preta e listras brancas no corpo e nas pernas. Costuma picar, transmitindo a febre chikungunya, nas primeiras horas da manhã e nas últimas da tarde, evitando o sol forte. O indivíduo não percebe a picada, pois não dói e nem coça no momento. Por ser um mosquito que voa baixo - até dois metros - é comum ele picar nos joelhos, panturrilhas e pés.

Além de transmitir dengue e febre chikungunya, a fêmea do Aedes aegypti também passou a carregar o vírus responsável pela febre Zica.

Sintomas de Febre Chikungunya :

O período de incubação da febre chikungunya varia de dois a 12 dias. Muitas pessoas infectadas com CHIKV não apresentarão sintomas. O quadro clínico é muito semelhante ao da dengue, e os sintomas de febre chikungunya são:

•Febre

•Dor nas articulações

•Dor nas costas

•Dor de cabeça.


Outros sintomas incluem:

•Erupções cutâneas

•Fadiga

•Náuseas

•Vômitos

•Mialgias.


Os sintomas comuns de chikungunya são graves e muitas vezes debilitantes, sendo as mãos e pés mais afetados. No entanto, pernas e costas inferiores frequentemente podem estar envolvidas.


Febre chikungunya x Dengue:

A febre chikungunya apresenta um quadro muito parecido com os sintomas da dengue. Entretanto, é importante diferenciar o diagnóstico das duas doenças, uma vez que a dengue é mais grave e seu tratamento pede um acompanhamento mais próximo.

Se você suspeita de febre chikungunya, vá direto ao hospital ou clínica de saúde mais próxima. O diagnóstico deverá ser feito por meio de análise clínica e exame sorológico (de sangue). A partir de uma amostra de sangue, os especialistas buscam a presença de anticorpos específicos para combater o CHIKV no sangue. Isso indicará que o vírus está circulando pelo seu corpo e que o organismo está tentando combatê-lo.


Tratamento de Febre Chikungunya :

Atualmente, não há tratamento específico disponível para a febre chikungunya. Para limitar a transmissão do vírus, os pacientes devem ser mantidos sob mosquiteiros durante o estado febril, evitando que algum Aedes aegypti o pique, ficando também infectado.

É importante apenas tomar muito líquido para evitar a desidratação. Caso haja dores e febre, pode ser receitado algum medicamento antitérmico, como o paracetamol. Em alguns casos, é necessária internação para hidratação endovenosa e, nos casos graves, tratamento em unidade de terapia intensiva.

Como na dengue, pacientes com febre chikungunya devem evitar medicamentos à base de ácido acetilsalicílico (aspirina) ou que contenham a substância associada. Esses medicamentos têm efeito anticoagulante e podem causar sangramentos. Outros anti-inflamatórios não hormonais (diclofenaco, ibuprofeno e piroxicam) também devem ser evitados. O uso destas medicações pode aumentar o risco de sangramentos.


Complicações possíveis :


A mortalidade por febre chikungunya é muito pequena. Entretanto, um aumento na taxa de óbito absoluto foi relatado durante as epidemias de 2004-2008 na Índia e na Ilha Maurício.

Após os primeiros dez dias, a maioria dos pacientes sentirá uma melhora na saúde geral e na dor articular. Porém, após este período, uma recaída dos sinais pode ocorrer com alguns pacientes reclamando de vários sintomas reumáticos. Isso é muito comum entre dois e três meses após o início da doença. Alguns pacientes também podem desenvolver distúrbios vasculares periféricos, como a síndrome de Raynaud. Além dos sintomas físicos, a maioria dos pacientes reclama de sintomas depressivos, cansaço geral e fraqueza.

O sintoma persistente mais comum é dor nas articulações decorrentes de inflamação, geralmente as mesmas articulações afetadas durante os estágios agudos. Outros sintomas, como cansaço e depressão, podem persistir após a fase aguda da doença.


Entre os fatores de risco para não recuperação estão idade avançada (mais de 65 anos), problemas de articulação pré-existentes e doenças agudas mais graves.

O mosquito Aedes aegypti é o transmissor do vírus e suas larvas nascem e se criam em água parada. Por isso, evitar esses focos da reprodução desse vetor é a melhor forma de prevenir a febre chikungunya!

 Veja como eliminar o risco:

Evite o acúmulo de água

O mosquito coloca seus ovos em água limpa, mas não necessariamente potável. Por isso é importante jogar fora pneus velhos, virar garrafas com a boca para baixo e, caso o quintal seja propenso à formação de poças, realizar a drenagem do terreno. Também é necessário lavar a vasilha de água do bicho de estimação regularmente e manter fechadas tampas de caixas d'água e cisternas.

Coloque areia nos vasos de plantas:


O uso de pratos nos vasos de plantas pode gerar acúmulo de água. Há três alternativas: eliminar esse prato, lavá-lo regularmente ou colocar areia. A areia conserva a umidade e ao mesmo tempo evita que e o prato se torne um criadouro de mosquitos.

Ralos pequenos de cozinhas e banheiros raramente tornam-se foco de febre chikungunya devido ao constante uso de produtos químicos, como xampu, sabão e água sanitária. Entretanto, alguns ralos são rasos e conservam água estagnada em seu interior. Nesse caso, o ideal é que ele seja fechado com uma tela ou que seja higienizado com desinfetante regularmente.  

Limpe as calhas:


Grandes reservatórios, como caixas d'água, são os criadouros mais produtivos de febre chikungunya, mas as larvas do mosquito podem ser encontradas em pequenas quantidades de água também. Para evitar até essas pequenas poças, calhas e canos devem ser checados todos os meses, pois um leve entupimento pode criar reservatórios ideais para o desenvolvimento do Aedes aegypti.


Coloque tela nas janelas:


Embora não seja tão eficaz, uma vez que as pessoas não ficam o dia inteiro em casa, colocar telas em portas e janelas pode ajudar a proteger sua família contra o mosquito Aedes aegypti. O problema é quando o criadouro está localizado dentro da residência. Nesse caso, a estratégia não será bem sucedida. Por isso, não se esqueça de que a eliminação dos focos da doença é a maneira mais eficaz de proteção.

Lagos caseiros e aquários:

Assim como as piscinas, a possibilidade de laguinhos caseiros e aquários se tornarem foco de febre chikungunya deixou muitas pessoas preocupadas. Porém, peixes são grandes predadores de formas aquáticas de mosquitos. O cuidado maior deve ser dado, portanto, às piscinas que não são limpas com frequência.

Seja consciente com seu lixo:

Não despeje lixo em valas, valetas, margens de córregos e riachos. Assim você garante que eles ficarão desobstruídos, evitando acúmulo e até mesmo enchentes. Em casa, deixe as latas de lixo sempre bem tampadas.

Uso de repelentes:

O uso de repelentes, principalmente em viagens ou em locais com muitos mosquitos, é um método paliativo para se proteger contra a febre chikungunya. Recomenda-se, porém, o uso de produtos industrializados. Repelentes caseiros, como andiroba, cravo-da-índia, citronela e óleo de soja não possuem grau de repelência forte o suficiente para manter o mosquito longe por muito tempo. Além disso, a duração e a eficácia do produto são temporárias, sendo necessária diversas reaplicações ao longo do dia, o que muitas pessoas não costumam fazer.

Suplementação vitamínica do complexo B:

Tomar suplementos de vitaminas do complexo B pode mudar o odor que nosso organismo exala, confundindo o mosquito e funcionando como uma espécie de repelente. Outros alimentos de cheiro forte, como o alho, também podem ter esse efeito. No entanto, a suplementação deveria começar a ser feita antes da alta temporada de infecção do mosquito, e nem isso garante 100% de proteção contra a febre chikungunya. A estratégia deve se somar ao combate de focos da larva do mosquito, ao uso do repelente e à colocação de telas em portas e janelas, por exemplo. “



NOTA DO BLOG:

Por falar em alho, recentemente, informaram que a pessoa descasca cinco dentes de alho, corta-os ao meio e coloca em um litro de água.  A partir do dia seguinte, toma um copo em jejum, todas as manhãs, durante trinta dias.  Dizem que é muito eficaz, por ser barato, vale a pena testar.

Outra notícia barata é descascar uma rodela de inhame e colocar no liquidificador com o suco de um limão. Bater e beber. Não cura, porém, dá alívio e coragem para o enfrentamento do famigerado vírus.

sábado, 11 de junho de 2016

AS LAVADEIRAS DO JOÃO FÉLIX-Ubireval Alencar




As lavadeiras do "João Félix" acordam pelos restos da madrugada. Lá pelas quatro horas começa a procissão silenciosa da caminhada da serra que sustenta o imenso morro chamado Alto do João Félix. Uma a uma as casas simples começam a ser abandonadas, deixando ainda sonolentos maridos, filhos e velhos alquebrados pelos anos. Nem uma xícara sequer do gostoso cafezinho, torrado com açúcar no tacho de cobre, serve de pedida inicial à disposição daquelas heroínas, que se apressam em chegar mais cedo ao improvisado local de lavagem de roupas, em pedras brutas.
O "João Félix" é uma fonte de nascente natural entre pedras rochosas. Várias outras pedras espalhadas ao redor servem de lavanderia para as laboriosas lavadeiras, que dispõem, como única opção de trabalho e curtos rendimentos, o lavado das roupas da gente da cidade. Foi um costume que começou pouco a pouco, com a descoberta da antiga minação, que por sinal é uma das que fornece água mais saudável para os habitantes da cidade. Prefeitos e mais prefeitos por ali passaram e nenhum deles se deu o trabalho de sanar a indigência d´água. Nos grandes centros do país, já se vive a era do computador, mas lá no agreste do sertão o precioso líquido parece uma dádiva milenar e miraculosa.
Mas as prefeituras continuam a existir e com elas a dotação de verbas específicas. Todo prefeito que por ali passou, sem exceção, construiu sua bonita casa e colocou caixas d´água em sua residência, que eram abastecidas diariamente pelo carrego de animais ou pessoas habituadas a esse serviço pesado. Até o ano de 1985, quando escrevia essa crônica, esses fatos se repetiam como aleijões mentais, dado o hábito dos administradores de não se imunizarem contra o individualismo (ou frequentemente através do enriquecimento ilícito), que cega qualquer abertura à consciência político-social.

Logo cedinho, a fonte miraculosa apojava. Era uma alegria incontida ver aquelas senhoras apressadas em dar conta das trouxas de roupa que traziam lá do pé da serra, onde adormecia a pequenina cidade. Utilizando-se de potes de barro, as lavadeiras recolhem o precioso líquido e junto às pedras informes esfregam e batem as roupas mais encardidas. Estiram-nas ao sol ainda ensaboadas, aguardam o tempo do coradouro e retomam o enxugamento. Trabalho ingente, esforço sobre-humano para aquelas idades avançadas, algumas delas até prateando os cabelos. Por ali já passaram Gersina, Maura, Francisca, Chica Rato, D. Ernestina, a velha Isabel. Mas a vida lhes havia destinado aquela ocupação, por falta de outra diretriz e proposta de trabalho na estrutura pública local. Pelo pão de cada dia, encetam a labuta diária, com igual afinco e tenacidade. E disso se aproveitam para a troca de experiências maiores.
Entre elas, em meio ao lavado intensivo, havia um sentido de união e amizade que supera o comum das pessoas. Ora é a meizinha que é ensinada a uma consulta formulada, ora são os sintomas da doença de outra que servem de aviso para a recaída de uma outra, ora ainda é a decepção pelo caso de uma filha que se tornou mulher e mãe sem que o responsável aparecesse.... Esses temas compunham a tônica da maior parte das conversas ali ouvidas, como se fossem capítulos de uma estirada novela ao natural. Raras vezes o assunto exigia paralisação de todas para a escuta de um caso esporádico, quer seja ligado a mortes naturais, quer seja referente a assassinatos. Mas quando isso acontece , o silêncio é tão profundo que se ouvem perfeitamente os movimentos dos sapos deslizando-se nas locas das pedras encharcadas. Afora esses instantes de compenetração grande, ouvem-se as desabridas gargalhadas soltas, com a contagem das presepadas feitas pelos parentes de casa.
Lá do João Félix, a vista contempla a cidade antiquada, delineando a planta das principais ruas. No pólo extremo, vê-se o Galo Assanhado, a rua de Cima, onde está a imponente e inacabada Igreja Mariz; mais à esquerda, o Mandacaru, com o velho cemitério cheio de mortos antigos. No vale que cruza o centro da cidade, são vistos os grandes telhados que recobrem os sobrados pioneiros das famílias (o de Sr. Manezinho conjugado ao sobrado de Mariita/Chiquinho Malta), o sobrado que pertenceu a Dumouriez Amaral, o prédio da Cadeia Pública ainda em pé, imponente, e excelente local para reedificação de uma Biblioteca Pública Municipal que nunca foi implementada. Desmoronou de repente todo o teto da Cadeia, numa nota condenadora do descaso dos que foram representantes do povo e não atentaram para o bem valioso que a cidade poderia preservar, e culturalmente ser o celeiro de tantas leituras, estudos, salas de computação e afins. A morte e desmoronamento do prédio da Cadeia tem o grau de perda de um ente querido da cidade que se vai esquecido de todos.
Algumas dessas lavadeiras conheceram de perto a vida daquelas famílias, dado o hábito de terem acompanhado suas mães, tempo atrás, quando iam buscar as trouxas de roupa dos casarões que hoje parecem derreados, abatidos e sem mais vida pulsando neles. Quando se põem a retroceder no tempo, lembram melancolicamente o caso da Rosinha, filha de Antônio Rodrigues, moça de tradição na cidade que teve seu amor desfeito, e que agora passeia pelas ruas todo tempo portando uma flor, indiferente aos feriados, domingos e dias de festas. Quando em vida, todas as tardes ela costumava aparecer nas varandas dos jardins que se voltam para as calçadas, fazendo a recolha de uma flor, de uma rosa, e só repete a mesma expressão desde que atingiu o encantamento de vida: "como elas estão lindas".
Absortas nessas recordações, as lavadeiras entremeavam suas atividades com esses pendores imaginativos, ou, por vezes, com outras reflexões condoídas. Dotadas de um senso prático e intuitivo, essas primitivas criaturas sabem com antecipação as possibilidades de uma boa safra de legumes e frutas; acostumadas a sondar o tempo, aquilatam a previsão das chuvas e do estio. Nunca precisaram de relógio para demarcar suas horas de trabalho. A réstia que perpassa os pés de mulungus assinala minuto a minuto o transcorrer do tempo. Ali mesmo, à hora do meio-dia, deglutem o gostoso feijão recheado a jerimum, maxixe e mocotó de porco, com bastante farinha de mandioca.
É o princípio mítico que norteia o pensamento selvagem dessa gente. Da força suscitada pelas águas, deriva a sacralização do espaço construído, sendo aí revelada uma verdade absoluta, como se fora a instauração de um novo mundo.
Para tanto, entregaram-se anos sem fim às práticas dos mesmos rituais, não estabelecendo nexos de causalidade entre a sua própria condição e a condição dos que têm urgência de representá-los politicamente. Não conseguem fazer a passagem da sua condição de natura para a condição de cultura. Limitam-se à vivência dos momentos sagrados (míticos) que instituíram, e se comprazem com essa simbiose de vida que é traduzida pela expressão corriqueira das respostas dadas:  -"Vamos pelejando com as graças de Deus e da Virgem Maria".








domingo, 5 de junho de 2016

TEMÍSTOCLES VERÍSSIMO GUIMARÃES- Ubireval Alencar


"AQUI JAZ A ALBATROZ NEGRA DO SERTÃO". Era o epitáfio que intitulava a tumba onde iria repousar a figura folclórica que marcou época na longínqua e memorável Mata Grande. Velhos amigos se dirigiam ao local irrecusável, acompanhando os despojos do cancioneiro infalível, e que agora pede licença para descansar.

Coisa muito bonita de se ver, ainda hoje, pelos interiores tardios, aquele contingente humano, a pé, prestando as últimas homenagens ao amigo que se despede. Há sempre um interesse maior de cada acompanhante de chegar até à alça do caixão e poder carregar o esquife movediço. É como se fosse, não apenas o tributo mais espontâneo de solidariedade, mas um tipo de prestação, a curto ou longo prazo, da futura dívida a contrair junto à comunidade.

Os homens se aprestam em cumprir essa tarefa,  enquanto as mulheres vêm mais atrás, com flores e grinaldas. Como em tantas outras coisas, o machismo interiorano aqui se traveste de um cavalheirismo louvável. Nesse dia, os homens põem sua indumentária mais nobre, enquanto as mulheres se cobrem com a palidez do cinza ou tonalidade próxima, numa analogia profunda com o sentimento religioso da paixão, da dor. Aqueles (as) que a longevidade impede a locomoção debruçam-se por sobre os beirais das janelas, ou aguardam sentados em antigas cadeiras, à soleira da porta, perscrutando o sinal do embarque definitivo.

À medida que a procissão fúnebre andava, eram relembradas as longas asas com que a albatroz negra sobrevoava as calçadas da tão desgastada cidade. Muitos pés fizeram caminhada a partir dali, levantaram voo bem alto, mas poucos se lembraram de recuperá-la. As compridas canelas do conhecido TEMISTO trambicavam igual a urubu cangueiro acossado pelas baleadas da meninada. Dois metros e lá vai pedrada era a altura imponente daquela criatura imperial. Parecia relíquia da época áurea.

 O queixo atirado, beiço derreado pelo peso do imutável cigarro de palha, a dentuça transparecendo os resquícios da nicotina acumulada, lá se vai a ave duradoura do sertão, com seus quase noventa anos de idade, guardando a sete chaves o laço enigmático da intimidade.


Logo cedinho, Temístocles espreguiçava a última noite indormida, quando se dera a mais um  recital de poemas, entremeado de canções langorosas. Do bar de Noca ao de Dinô, segue aquele ritual diário de um copo aqui, uma garrafa ali. Sempre a insubstituível pinga da braba. Pitu ou Serra Grande. Seresteiro da noite, criara o hábito de longa data, quando maloqueirava pelos sítios Gato e Marrecas. A boemia sempre foi o atrativo indomável. Enrolara caboclas e mais caboclas desprevenidas, em noitadas de furdunço. Conseguira sair-se bem em meio a facadas, tiros de rompante, fugas mirabolantes. Era a peça indispensável em  qualquer farra, casamento, ou arruaça.

Atento a todo fato local, discutia da matéria literária, política à matéria filosófica. Sabia de cor versos e mais versos de Augusto dos Anjos, de Castro Alves. Recitava-os nos intervalos das canções lânguidas, sempre acompanhado de um violão. Não mudava os poetas nem as canções. Orestes Barbosa, Noel Rosa eram seus cancioneiros prediletos. Vicente Celestino só era invocado uma única vez na noite, quando os efeitos do álcool o deixavam além de suas expectativas.

O Temisto, vulgarmente conhecido, tornara-se um solteirão inveterado, após alguns anos de casado, e vários filhos espalhados entre várias mulheres. Efetivamente, só conhecia dois, aos quais respondia a bênção diária com o "Deus te abotoe". Era a figura apresentável à curiosidade de qualquer visitante. Na companhia do mocotó de porco, na discussão acalorada sobre política, na confidência do último crime praticado, ali estava o amigo e confessor profano, dando sua palavra sugestiva, com o olhar oblíquo. Nessas horas, não parecia o gigante físico que era. Dobrava-se cautelosamente até o confidente e acomodava os enormes braços nas pernas desengonçadas. Quem chegasse por perto sabia que se tratava de colóquio sigiloso. E assim arquivou, ano a ano, a delação de muitos fatos e crimes jamais suspeitos. Quando se tratava de zombaria ou piada imprópria, também se privava com uma única gargalhada desregrada, que se juntava à tosse pigarrenta e de escarro estridente.

Compensava, nesses gestos solidários, a solidão que construíra, tempos atrás, pelo descaso que proporcionara aos que lhe eram íntimos. Não culpara a vida nem ninguém, e se julgava de posse de um destino safado com quem brigaria até o fim. Vivia como se fosse uma espécie de inventário e pensamento crítico do arquivo temporal. E é chegado o momento de sujeitar-se ao julgamento da História. Era essa uma das reflexões feitas pelo último orador, no momento em que o ataúde descia as paredes sepulcrais. Temístocles havia encontrado na cidadezinha fecunda o prato feito para o seu gosto. Ali havia um celeiro de improvisados seresteiros. Cada um queria primar pela sua reputação. Mas o tempo foi passando, e cada seresta foi sepultando no esquecimento o seresteiro inautêntico. O epitáfio do campo santo, junto com o estribilho dos que o levaram à sepultura, volta às ruas da cidade, num coro uníssono: " O sertão homenageia seu pássaro seresteiro - Temístocles - albatroz negra que vagueia pelas madrugadas".

 Essa foi sua única ambição, seu maior desejo: nas caladas da noite, tornar-se assombração. (extraído do livro  do autor Faces & Interiores)
























sábado, 28 de maio de 2016

UM SETENTÃO ENVELHESCENTE – Germano














UM SETENTÃO ENVELHESCENTE – Germano




Hoje completo setenta anos e as fichas ainda não caíram, pois sempre vivi na esperança de  aumentar a idade  por décadas e com total lucidez, mesmo, esquecendo os nomes dos amigos, dos lugares e por muitas vezes, das palavras. Todavia, o que posso fazer se vou acumulando  mais  e mais,  decêndios de jovialidade,  reconhecendo entretanto, que com esse acúmulo, está começando a aparecer os reveses da vida.

Agradeço sempre a Deus pela generosidade que  tem tido comigo, pela forma como  resolvo os meus problemas, pela vida que levo, por meus amigos, pela criação severa que tive dos meus pais Balbino Alves Bezerra e Luiza Villar de Mendonça, pelo excelente emprego que consegui no BNB  quando ainda cursando o terceiro ano  no Ginásio Felix Moreno, pela excelente e acertada escolha que fiz da fiel companheira Icléa  Barbosa, cujo amor continua como no dia do casamento em 1967,  pela querida família que juntos constituímos com o nascimento da linda e querida filha Geovanna Lea e dos lindos filhos Marcus Vinicius  e Germano Enrico, que somente nos enchem de orgulho,  e para completar a minha imensa gratidão ao Criador, pelos lindos e queridos netos Vinicius, Marcus e Luís Enrico e netas Caroline, Laila, Letícia e Luíza e ainda, pelo excelente genro Cesar Pessoa de Melo e pelas belíssimas noras Cristine e Lúcia Paula, portanto, sou grato e assim continuarei cumprindo com o que me foi reservado como destino.

Iniciei meus trabalhos manuais com  quatorze anos, fui garçom de bar, cujos proprietários Natalício Pinheiro e Dalva Brandão sempre foram bons amigos; radialista, como locutor da Rádio Educadora de Mata Grande, cujo proprietário Cristiniano Fortes Nunes , político e ex-prefeito, ainda hoje mantemos uma estreita amizade; administrador da Associação Rural de Mata Grande e da Associação de Proteção a Maternidade e a Infância de Mata Grande, cujo Presidente era o Dr. Eraldo Malta Brandão de saudosa memória;   segundo secretário da Prefeitura Municipal de Canapi –Al., cujo Prefeito João Alvino Malta Brandão, também de saudosa memória, permaneceu como amigo particular até os dias que o Criador o chamou;  como  bancário, ingressei no Banco do Nordeste do Brasil S/A., como praticante de escritório e depois através de concurso interno como Escriturário onde atingi o ápice da carreira, como Gerente de Agência , então , me aposentei em 1996, esta foi a melhor fase.

Prosseguindo a  vida laboral, tornei-me pequeno produtor rural ,  ocasião em que administrei a Ciretran de Santana do Ipanema, por isso, voltei a estudar e fiz o curso de Direito na Faculdade Raimundo Marinho, tornando-me bacharel em Direito, um antigo sonho que realizei com sessenta e seis anos de idade.

A convite do Prefeito  Fernando Lou, exerci o cargo de Secretário de Agricultura do nosso município com a missão de dar uma “balançada na agricultura” palavras do  prefeito. O que fiz com amor e dedicação, haja vista  pertencer a área agrícola.

Nutro muitas saudades  dos bons momentos vividos no passado, em cada canção, renovo o meu prazer pela vida, pois alimentam a minha esperança de  dias cada vez melhores. Curto cada momento do presente, realizando os prazeres que a vida favorece, junto aos meus familiares e amigos.

Como complemento de vida adotei a frase que diz: “Os netos são a sobremesa dos avós” e  cada dia que passa sinto  o coração engrandecer de amor por  eles, me dando ânimo para continuar como sou e em cada amanhecer, sempre busco novas alegrias e vibro ao ouvir o bom dia do bem te vi ou mesmo de uma pequenina garrincha.

À minha querida Teinha  um agradecimento especial, por que juntos passamos todas as dificuldades inerentes a um casal no início da vida. Relatar daria um livro de histórias. Das bonanças às dificuldades financeiras, juntos, conseguimos superar todas , graças ao nosso bom e generoso Deus. Nas ausências dos  entes queridos que se foram, choramos juntos. Nos momentos difíceis onde às saídas honrosas nos pareciam impossíveis sempre encontramos a melhores saídas tal e qual nos labirintos. Na educação dos filhos Icléa sempre foi de uma coragem insuperável. Sempre foi adorável nos trabalhos domésticos e para cuidar dos familiares em geral, nada negativo, dado a sua disponibilidade em querer sempre servir e agradar. Um beijo de agradecimento  minha amada esposa.

Recentemente descobri a palavra sexalescente que é uma mistura de sexagenário com adolescente, que  estimula mais àqueles que como eu ainda não admitem a idade avançada. Passei pela fase da adolescência que é uma preparação para ingressar na idade adulta.

Como estou setentão, eis que surge a palavra  “ENVELHESCÊNCIA” que, nada mais é do que uma fase preparatória para o envelhecimento. Sem querer, é claro, tenho que começar no ABC dessa fase, com a mesma alegria que me é peculiar. Curtir a família e os amigos, eis o meu lema , sempre agradecendo a Deus por ter sido sempre muito generoso.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

A OUTRA ( A AMANTE) - UM SER LIBERTÁRIO - Ubireval Alencar




A Outra (a Amante) - um ser libertário

                                                                                                                                                                Ubireval Alencar





"Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. Eesperança suficiente para fazê-la feliz."

(Escritora Clarice Lispector)



Esse texto da escritora Clarice Lispector  é um bom motivo para representação dessa figura ímpar – a Outra, a Amante , imputável concomitantemente a ele, o Outro, o Amante – como projeto individual de uma existência atuante. A coisa poderia parecer simplória, se comparada a questões dogmáticas, preconceituosas, ou tabus que em público nenhuma mulher aceitaria discutir.

O raciocínio ora esboçado parte não dos fatídicos modos e empregos versados na net, nos papos virtuais. Nessa configuração, são bem humorados os homens que latentemente sabem, imaginam que Ela-amante estaria naquele horário, naquelas horas mais críticas – os intervalos de almoço e os finais de tarde. Ganham até um paisagismo incomparável a feitura e criatividade dos nicks em  que os digitadores se personificam: casado[sic] sozinho; casado em casa; casado sem ela; casado mas livre; casado de férias; homem sem dona; casado mas quer

E por aí derivam os debochados com linguagens chulas, desabonadoras da boa conversação e amizade que a net certamente faculta aos usuários.

Mas o veio, fluxo principal dessa argumentação não está na virtualidade, a possibilidade de, a conquista virtual, mas na inteireza psicológica daquela que não mais pretende ou deseja viver as formalidades sociais de casamento, concubinato, ou junções de talheres e roupas. A Outra, Amante, vem-se desenhando como a mulher inteiramente independente, econômica, financeira e moralmente, mas que se impõe como ser concreto, com experiência de vida afetiva, mas deslanchada dos arreios tradicionais, conformações e desvinculada de clichês pragmáticos.

Ela ama, dá-se, sem a cobrança de horários; espera, aguarda a hora mais delicada do dia sem o comprometimento arriscado do visitante; sabe compreender a ausência sem explicação de uma promessa das cinco da tarde. Ela é expectativa, faz-se surpresa com a chegada em atraso. A Outra quer ser a instância de paz, o momento de refrigério e compreensão para o Amante aturdido de tarefas e compromissos, e com amores já definidos e família constituída. A preservação do status quo é sua maior legitimidade.

A Amante conhece os instantes em que terá que aguardar as migalhas da mesa do prazer e que com certeza sobram pela contingência da má ingestão num casamento em desalinho. Mas sem que ela se torne o depósito dos maus feitos ou choradeira como se fosse o desaguadouro de cornos do passado dele. Daí a extrema necessidade de ela ser só. Livre de vínculos jurídicos, afeita à tomada de consciência de que o ser visitante, amado, terá que retornar melhor, mais carinhoso e amigo dos seus preestabelecidos.

Com esse nascente/antigo estatuto, a Outra desenha seu traçado de escolhas que mais condigam com seu caráter, suas afeições e feições, seu intimorato modo de viver.

Sabe que não pretende concorrer ou interromper qualquer tipo de relacionamento anterior daquele a quem se afeiçoou, ou por quem foi conquistada. Ausente de punições ou culpas, vive a harmonia do ser libertário, consciente de que a vida é uma só e somente a ela cabe as decisões do traçado de si própria. Só os candidatos virtuosos lhe cairão na bandeja das pretensões. Ficam terminantemente excluídas as taras de sexo mecânico, coberturas do que não tem o que fazer, ou doentios da propagação da difamação ou reputação em ambiente de trabalho.

Por isso a mulher, Amante, a Outra  não tem  pátria. Ela pousa onde o amor a encanta; ela vive das emoções, da sensação de saber-se desejada, e espera  dias, meses, anos sem fim. Porque  vive o compasso da espera, enquanto tem a certeza de que um olhar a cobrirá de satisfação, um abraço reviverá todas as instâncias e carências antes deglutidas. Se ele promete vir às cinco horas, já dizia analogamente a personagem raposa ao Pequeno Príncipe, então desde as quatro horas ela, amante, já se sentirá feliz.  Na verdade, ela sabe o prenúncio do cio das horas, na aquilatação do ser mulher .Nesse sentido ela é de extrema autenticidade, porque desconhece o ser promíscuo, a mulher devassa. Há nela o mesmo sentido de fidelidade que mantém a esposa, sendo ou não correspondida. No interior da Amante só cabe uma certeza – viver a gravidez e gestação de um afeto cujo prazo limite para nascimento é pendular. Ela oscila de um momento a outro, na aceitação das vicissitudes do amado, com suas fragilidades, inconstâncias e endividamentos anteriores. Ela existe? Só os condignos desse conluio  amoroso é que poderão ratificar ou contestar.














segunda-feira, 23 de maio de 2016

A SINGULARIDADE DE UM QUARTETO DA PREFEITURA – Ubireval Alencar


A SINGULARIDADE DE UM QUARTETO DA PREFEITURA – Ubireval Alencar
É muito comum nas cidades interioranas defrontar-se o visitante com o inusitado modo de viver de determinadas personalidades. Pela sua conformação física, segundo o modo como se portam, trabalham ou se exprimem, elas se constituem um dos modos singulares de vida, distinguindo-se do proceder normal e rotineiro das pessoas habituadas à grande cidade.
O quarteto aqui referido não diz respeito à composição de membros para efeito musical. A sinfonia do modo de vida das personagens é o texto que interessa e que deverá ser posto em questão. Aproveito-me de nomes à época conhecidos por apelidos locais, hoje certamente não mais vivos, e que se tornaram quase lendas interioranas. Mas a história real de cada uma delas deve ter sido bem diferente e com certeza com muito mais interesse que as qualidades aqui apontadas.
Zé Grilo, Mané Moco, Corró e (seu Bié) Sete-Bundas eram apelidos atribuídos aos lixeiros que faziam a coleta  da cidade, num interior qualquer ainda de extremo subdesenvolvimento.  Zé Grilo era um dos mais franzinos, de pequena estatura, boca larga e olhar esbugalhado. Mané Moco, antes de tudo meio surdo, era um dos mais ágeis no desempenho do trabalho, talvez pelo porte médio e compleição física mais forte; Corró era deficiente de um olho, muito magro e com sequelas de subnutrição; Sete-Bundas era o tipo bonachão, de traseiro reforçado, que lhe valeu o epíteto da conta do mentiroso.
Tudo isso coexistiu na cidade de clima dos mais agradáveis em pleno sertão nordestino, entre as fronteiras de Alagoas, Pernambuco e Bahia.
Por anos seguidos, entregaram-se à partitura de comandar a carroça de lixo, que na verdade era a metade de uma carroceria de caminhão, puxada a animal. O boi de Zé Grilo, como era conhecido pela meninada local, percorria as ruas da pequenina cidade arrecadando aqui e ali os despojos das latas. Tamanho caráter assumiu esse quarteto que até virou modinha na cidade, cujo estribilho terminava sempre na divisão dos hexassílabos         

                                                                A carroça do lixo

                                                                parece uma zabumba,

                                                                Zé Grilo, Mané Moco

                                                                Corró e Sete-Bunda

                                                                                                                                                                                     
 Mas, antes da coleta propriamente dita, todas as ruas eram varridas, e só posteriormente eram arrecadados os entulhos deixados por animais, crianças e adultos.
Ecólogos prematuros, não se limitavam apenas à apanha do que encontravam pelas ruas, mas também tomavam a liberdade de preservar as poucas árvores que a molecada teimava em destruir. Haviam plantado aquelas árvores, por elas sentiam-se responsáveis, e por isso impediam que elas fossem destruídas gratuitamente. Havia também um efeito catalisador. Aquelas árvores serviam-lhes de abrigo durante o sol inclemente. Eram uma espécie de apaziguamento e refrigério momentâneo, nas horas de calor escaldante.
O quarteto também se caracterizava por uma outra peculiaridade, que os fazia mais conhecidos, um tanto admirados, e, em determinados instantes, principalmente aos sábados, dia de feira, excelentemente aplaudidos. É que nesses dias se realizava a feira de frutas, verduras, carne e outros gêneros alimentícios. O universo dos supermercados ainda não havia adentrado aquele espaço interiorano. Em contrapartida, toda população
 comprimia-se na busca de angariar o suficiente para a família e na quantidade satisfatória para a duração de uma semana. Ao final da tarde, começava a limpeza grande, com a recolha dos restos de feira que muitas vezes servia, para muitos desfavorecidos, desempregados e pobres, de migalhas comestíveis. 
Concluídos os trabalhos, exaustos, os componentes do quarteto começavam a etapa comemorativa do dia no bar mais próximo. Afeitos ao sabor da cachaça mais forte, prosseguiam naquela bebedeira à proporção que surgia um pagante mais pródigo. Criaram esse hábito ao longo dos anos. Agora, na idade avançada, tinham nesses momentos sua rara oportunidade de desafogar mágoas e carências de outros bens que efetivamente nunca se decidiram a lutar por eles. E a cachaça ia-se repetindo em mais uma, mais outra, agora sob os auspícios de um pequeno grupo de rapazes que os instigavam. O ponto ideal dava-se quando começavam a discutir e brigar entre si. A plateia que os havia preparado para esse momento se põe a exercer seu papel influente. Fazem provocações, xingam-nos, dizem que um dos componentes havia xingado o outro, inventam mentiras a torto e a direito, de modo a que os contendores se exaltem e o litígio se instaure.                                                       
Raras vezes essas discussões tiveram proporções maiores, com derramamento de sangue ou fatos similares. O mais comum nessas bebedeiras é haver troca de empurrões, tapas, xingações e depois as coisas terminavam em abraços desencontrados ou até choros catárticos, que se juntavam aos propósitos de eterna amizade. O que não seria capaz de realizar o miraculoso álcool nas mãos desses sacerdotes da vida pública? Por toda vida acompanharam esse ritual fascinante, cujo modelo foi passando de geração a geração. Por que haveriam de negar, também eles, essa prática inveterada do festim dos deuses?
É chegado o momento da contagem regressiva para o retorno às suas casas. Cada um dos componentes tem seu caminho mais tortuoso. Mas a desordem mental os faz entrar em portas que não deveriam, tropeçam em batentes imaginários, e ainda deixam extravasar atos e paixões nunca antes confessados. São verdadeiras notas musicais em desacordes. A essa altura, o cortejo de moleques e desocupados de todas as idades se põe à espreita do desenrolar dos acontecimentos, ou ajudam a compor aquela cena hilariante com a algazarra de uns, assobios e vaias de outros, constituindo-se a nota dissonante, excêntrica e desejável daquela tarde.




sábado, 21 de maio de 2016

LUIZ CORNETEIRO - Ubireval Alencar


LUIZ CORNETEIRO – Ubireval  Alencar

LUIZ CORNETEIRO – assim chamado o conhecidíssimo Luiz Gonzaga Malta Gaia. Filho de dona Alzira Malta. Que senhora imponente e carismática e de forte personalidade! O seu Luiz Gaia herdou esses traços de personalidade de uma mãe carismática.
Foi prefeito eleito pelo povo logo após a tragédia das mortes de Eustáquio, Ubaldo e Sonia Malta. Ainda se ouvem os gritos de Gerusa Malta nas calçadas da Rua da Cruz e  dona IZA sendo alvejada sem maior gravidade no tiroteio em pleno dia de eleição.
O combativo Luiz Corneteiro tomou a vertente do Papa Francisco. Pós mandatos eletivos (Prefeito e Deputado) instaurou o pragmático Pombo – Correio entre Mata Grande e Maceió. Disponível e inteiramente gratuito, fazia o transporte de encomendas, cartas e tudo que lhe fosse solicitado. O Beco  São José em Maceió era o Sedex da época. Prestimoso, amigo, caixa eletrônico nas horas necessárias de tantos estudantes que já acorriam a capital em busca do conhecimento e profissionalização.
Ninguém ali chegava em busca de um favor sem que fosse atendido. A mesma parcimônia e alegria de servir. Não lembro que corneta esse grande amigo tocava, mas as portas de sua casa estavam sempre abertas nas férias de Mata Grande pros famosos “assaltos dançantes” nas noites pré e pós natalinas. Não se apagarão da nossa memoria  gestos  beneméritos assim como a cordialidade continuada dos filhos Joao Roberto, Jose Luís, Maria Isa e Luiz Antônio.
Luiz Gaia continuará como marco de um ser humano pleno de humanidades. Visitei-o no seu leito enfermo, e ainda tive como tributo maior desse Homem de personalidade impar a dádiva de ver escorrer em seu rosto lágrimas de agradecimentos pela visitação. Nós o abraçamos amigo Luiz. Os céus não terão falta de festejos. VOCE é o símbolo da festividade humana.  A sua memória a sua superioridade de ter vivido como  homem, esposo e pai de lindos  filhos.



sexta-feira, 20 de maio de 2016

MATA GRANDE DOS MEUS TEMPOS DE MENINO- Remi Bastos






MATA GRANDE DOS MEUS TEMPOS DE MENINO



Quanta saudade eu sinto
Da querida Mata Grande,
Dos meus tempos de menino,
Rua da Cruz onde morei
E dos belos dias que passei
Naquele torrão divino.


Mata Grande dos meus sonhos
Dos sítios e dos engenhos,
Meu paraíso encantado
Rua de Baixo, Rua de Cima,
Mata Grande das belas meninas
Berço dos meus pecados.


Ah! Se eu pudesse outra vez
Retornar ao meu passado,
Ser criança novamente
Jogar bola com João Bodinho
Naquele antigo campinho
Em frente à velha nascente.


Mata Grande eu confesso
Que depois de tantos anos
Ainda me lembro de você,
Recordo com muita saudade
Os meus dias nesta cidade
Que não consigo esquecer.



Remi Bastos,
Aracaju, 19.05.2016.