A DECADENCIA
CRONOLOGIA OFICIAL DA MINHA
DECADÊNCIA (Relatório não solicitado do meu próprio corpo)
1. O CHÃO NÃO ME QUER MAIS
Descobri que o chão não é mais
lugar neutro. Ele me observa. Sento com cuidado, como quem entra em território
hostil. O erro não está em sentar — está em acreditar que levantar será
simples.
Quando sento no chão hoje, meu
corpo não relaxa. Ele calcula. Avalia rotas de fuga. O joelho consulta a
coluna, a coluna ignora o pedido e o braço se oferece como apoio mesmo sabendo
que não aguenta.
Levantar virou espetáculo
constrangedor. Não é um movimento, é uma sequência de tentativas. Em algum
momento faço força demais, em outro faço força nenhuma. O barulho que sai não é
dor: é protesto mecânico.
Quando finalmente fico de pé,
não comemoro. Fico parado, esperando o mundo voltar. A dignidade não voltou,
mas o equilíbrio, às vezes, sim.
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2. LEVANTAR RÁPIDO É COISA DE
JOVEM IMPRUDENTE
Existe uma idade em que
levantar rápido deixa de ser virtude e passa a ser afronta. Eu levanto e a
pressão fica sentada. O cérebro chega depois, ofegante, perguntando o que
aconteceu.
Por alguns segundos, tudo
escurece. Não é desmaio, é negociação. O corpo segura a consciência pelo
colarinho e diz: “Fica quieto aí que eu resolvo”.
Aprendi a levantar devagar não
por prudência, mas por sobrevivência. Hoje, quando alguém me chama com
urgência, respondo com calma. Se for importante mesmo, espera.
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3. COMER É UMA ATIVIDADE DE
ALTO RISCO
Eu não me sujo. A comida me
ataca. Arroz pula, feijão escapa, molho escolhe a camisa clara como alvo
preferencial. O guardanapo é figurante — existe apenas para manter a esperança.
Já tentei comer com cuidado.
Não adiantou. A colher treme, o garfo trai, e a gravidade faz o resto.
Elegância hoje é sair da mesa sem precisar explicar a roupa.
Aprendi que quem come limpo
depois dos sessenta está mentindo ou passou fome.
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4. A BRAGUILHA COMO MANIFESTO
POLÍTICO
Eu fecho a braguilha. Confiro.
Saio confiante. Ela abre. Sozinha. Por ideologia.
Só percebo quando alguém olha
rápido demais ou quando ninguém olha — o que confirma que já não há perigo
social. A braguilha aberta não é descuido: é declaração silenciosa de
aposentadoria simbólica.
Hoje, confiro menos. Se
ninguém reclamar, é porque não importa mais.
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5. O BANHEIRO COMO UNIDADE DE
MEDIDA
Antes de sair, pergunto se tem
banheiro. Não por curiosidade, mas por logística. A vida passou a ser medida em
distância até o vaso mais próximo. O idoso experiente sabe: Nunca negligencie a
proximidade de um banheiro!
“Depois eu vou” virou frase
proibida. O corpo avisa em cima da hora e cobra juros. Aprendi que fé ajuda,
mas encanamento ajuda mais.
Saio menos. Não por preguiça,
mas por planejamento hidráulico.
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6. O DIA EM QUE PAREI DE
CONFIAR EM MIM MESMO
Flatulência é um teste moral.
Todo peido vem acompanhado de dúvida. O problema não é o som, é o rodapé.
Já confiei demais. Já perdi. O
idoso experiente sabe: nunca confie plenamente no próprio esfíncter. Prudência,
nessa idade, é sinal de sabedoria e cueca seca. E a vida pune a soberba com
rapidez e umidade.
Hoje, sento com cautela,
levanto com dignidade possível e nunca aposto alto em gases.
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7. A EREÇÃO INÚTIL
Quando aparece, não serve.
Quando serve, não aparece. A ereção virou evento fora de pauta.
Surge em momentos impróprios,
sem futuro, sem plateia. Some quando é necessária, como funcionário público em
véspera de feriado.
Desperdiço ereções como quem
perde ônibus: sempre fora do horário e sem possibilidade de retorno. O corpo
diz “quero”, mas não diz quando, nem pra quê.
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8. RIR É O QUE SOBROU
O corpo falha diariamente. A
dignidade acompanha. O que sobra é o riso — ácido, indecente, necessário.
Rir não cura, não levanta do
chão e não fecha a braguilha. Mas ajuda a atravessar o dia sem pedir desculpa
por existir.
Enquanto eu rir disso tudo,
ainda sou eu que conto a história. Depois, alguém conta por mim — e aí perde a
graça.
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9. A QUEDA NÃO FOI A PIOR
PARTE
Cair não dói tanto quanto
perceber que todo mundo viu. O chão não me derrubou: eu cheguei até ele por
excesso de confiança.
O corpo não avisa. Ele
simplesmente desliga uma função aleatória e observa o resultado. Quando me dei
conta, já estava no chão, tentando levantar rápido — erro clássico, agravante
de pena.
O pior da queda não é a dor, é
a plateia. Pessoas surgem do nada oferecendo ajuda, cadeira, água e perguntas
inúteis. “Foi tontura?” Não. Foi idade.
Levantei fingindo dignidade.
Caminhei mancando com orgulho. Em casa, mancando com verdade.
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10. EU OUÇO, MAS PREFIRO NÃO
A audição não falha de vez.
Ela escolhe. Escuto cochicho irrelevante do outro lado da sala, mas não entendo
quem fala comigo de frente.
Peço para repetir. Repetem.
Não entendo. Sorrio e concordo. Já aceitei convites que nunca aconteceram e
discordei de elogios sinceros.
O problema não é ouvir pouco —
é ouvir errado. O constrangimento vem sempre depois.
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11. O ESQUECIMENTO SELETIVO É
UM TALENTO
Não esqueço tudo. Esqueço o
que não importa… e algumas coisas que importam muito.
Lembro perfeitamente de uma
discussão de 1987, mas esqueço onde coloquei a chave há cinco minutos. Nomes
somem, rostos permanecem, compromissos evaporam.
Dizem que é normal. Normal pra
quem não marcou consulta achando que era amanhã. Era ontem.
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12. O MÉDICO SEMPRE SABE MAIS
DO QUE EU GOSTARIA
O médico me chama pelo
primeiro nome e olha meus exames como quem lê um romance policial. Faz
silêncio. Esse silêncio custa caro.
“Na sua idade…” começa sempre
assim. Nunca termina bem. Tudo é compatível com a idade — menos minha
expectativa.
Saio do consultório com mais
perguntas, menos certezas e uma lista de recomendações que não seguirei à
risca.
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13. EXAMES: A HUMILHAÇÃO
ORGANIZADA
Nenhum exame respeita a
dignidade humana. Todos exigem jejum, despir-se ou posições incompatíveis com o
amor-próprio.
O pior não é o exame — é o
resultado “para levar ao médico”. Não dizem nada, mas dizem tudo.
Aprendi que quem pede exame
não quer saber se você está bem. Quer saber o quanto não está.
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14. REMÉDIOS: MEU CAFÉ DA
MANHÃ
Tomo remédios em horários
diferentes para coisas que não lembro direito. Uns para acordar, outros para
dormir, alguns para compensar os primeiros.
Levo os comprimidos numa
caixinha organizada. Se misturar, vira roleta química.
Já não sei se estou vivo por
mérito próprio ou por adesão farmacológica. Mas sigo — controlado, monitorado e
levemente sonolento.
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15. O DIA EM QUE VIREI
PACIENTE
Antes eu era pessoa. Agora sou
“caso”. Tenho histórico, protocolo e acompanhamento.
As pessoas perguntam como
estou. Respondo “estável”, como se fosse eletrodoméstico.
Vivo bem, dentro do possível.
E o possível, hoje, é menos ambicioso — e muito mais engraçado.
Luiz Carlos Marzano