O EXÍLIO DOS VELHOS
Há uma tragédia silenciosa
acontecendo dentro de muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais,
não provoca protestos nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda
assim, corrói lares, rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da
natureza humana: o abandono dos velhos.
Durante décadas, esses homens
e mulheres trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas,
enfrentaram doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães,
conselheiros e provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família
e da educação dos filhos.
Mas chega o tempo da velhice.
E chega rápido. De repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar
devagar demais. Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas
simples.
O velho fala demais. Conta
histórias que ninguém quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o
saco, dizem alguns. Já não se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às
vezes, perde o controle do corpo, fica fedorento, seboso.
A dependência, que deveria
despertar compaixão, muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo
silencioso de desumanização.
Aquele que um dia foi o centro
da família passa a ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda.
Uma mobília antiga que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.
Então surge a solução prática,
fria e aparentemente civilizada:
— “Vamos colocá-lo num abrigo.
Lá ele será bem cuidado.”
A frase é curta. Mas o efeito
é cruel.
Quase sempre essa escolha não
nasce do amor, mas da conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer:
— Não queremos mais lidar com
ele.
Em muitos casos, o próprio
idoso sequer é consultado.
De uma hora para outra, ele é
retirado da casa onde viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira
onde costumava sentar. Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É
arrancado de sua rotina, de suas lembranças e de sua história.
O que chamam de abrigo, para
muitos, transforma-se em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um
exílio triste. Para alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre
estranhos, aguardando visitas que raramente vêm.
No começo, os filhos aparecem.
Depois, espaçam as visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca.
Em certos lugares, nem sequer é permitido.
O tempo passa a ser medido não
pelos dias, mas pelas ausências.
Nos corredores de muitos
abrigos, repetem-se histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas
que não se abrem. Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado.
Alguns contam os dias pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de
esperar.
Há instituições sérias e
dedicadas, é verdade. Mas também existem lugares onde a velhice é tratada com
frieza mecânica: cuidadores sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios
distribuídos como numa linha de montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.
Há ainda um elemento mais
cruel nessa história. Em certas famílias, o abandono funciona como uma vingança
tardia. Filhos que cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou
autoritário encontram na velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de
ajustar contas.
— Ele nunca foi o pai que eu
queria.
Agora, pensam alguns, ele
pagará por isso.
É uma justiça amarga,
construída sobre ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice
transforma-se então em um tribunal sem defesa.
Mas seria injusto afirmar que
todos os casos nascem da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas
famílias simplesmente não conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal
trabalha o dia inteiro. Não há quem fique em casa. As moradias ficaram menores.
A renda familiar desabou com a aposentadoria. Nas casas surgiram novos
moradores: os netos. Há famílias em que três gerações já disputam o mesmo
espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta estrutura.
Cuidar de um idoso dependente
exige presença permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos
financeiros que simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da
indiferença, mas do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema.
Antigamente, as pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa,
cercadas por filhos, netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.
Hoje, a medicina prolonga a
vida — mas a sociedade ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais.
Ama-se menos.
E assim cresce um fenômeno
doloroso do nosso tempo: a solidão dos velhos.
O Brasil possui leis que
protegem o idoso. O Estatuto do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o
Estado têm o dever de garantir dignidade, respeito e convivência familiar.
Mas nenhuma lei do mundo
consegue fabricar aquilo que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor
filial.
O Estado pode fiscalizar
instituições. Pode punir negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas
não pode obrigar um filho a amar o pai. Não pode fabricar carinho. A
civilização sempre foi medida por um critério simples: como tratar suas
crianças e seus velhos.
Se uma sociedade abandona
aqueles que lhe deram origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura
moral. O mais inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo
silencioso.
Primeiro vem a impaciência.
Depois, a distância emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o
abandono socialmente justificado. E assim o ciclo se conclui.
Os velhos, que um dia foram o
centro da família, terminam a vida como hóspedes da própria história.
Mais do que políticas
públicas, precisamos recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma
corrente. Os velhos de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão
os velhos de amanhã.
Alguns perguntam, diante de
tanto sofrimento, se a morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez
seja. Para quem acredita na vida espiritual, a morte não é o fim, mas a
passagem para outra etapa da existência. A dor termina. A jornada continua.
Mas, enquanto a vida permanece
aqui, a velhice não deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O
tempo da gratidão. Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos,
pelas religiões e pela própria experiência humana:
A lei da causa e efeito.
A vida costuma devolver, mais
cedo ou mais tarde, exatamente aquilo que um dia praticamos.
Quem hoje abandona, amanhã
poderá ser abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E
talvez seja essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si
mesma:
Como queremos ser tratados
quando chegar a nossa vez de envelhecer?
Fortaleza, 02 de março de 2026
José Nilton Fernandes