sábado, 7 de novembro de 2026

A VENDA DO VOVÔ ZÉ LÚCIO - Márcia Machado

 

A venda de vovô Zé Lúcio

Na venda que ficava na esquina da rua 5 de julho, mais conhecida por rua nova, a dureza do chumbo granulado usado para carregar espingardas soca-tempero, convivia lado a lado com a maleável cera de abelha que ficava amaciada ao toque das mãos.

Às sextas-feiras, véspera da feira, O açúcar e o arroz eram pesados, divididos em 1 kg ou 1/2 kg e embalados em sacolas de papel de embrulho.

O sabão era medido cuidadosamente e cortado de acordo com a necessidade de cada freguês, este queria uma barra, aquele meia barra e o outro por sua vez metade de meia barra.

O sal, o colorau e o tempero já vinham embalados em pequenos sacos plásticos.

Os parafusos, pregos e roscas, ficavam organizados de acordo com o tamanho.

As facas peixeiras eram arrumadas de acordo com o comprimento, e o preço variava de acordo com as polegadas que iam de 5 a 10. As bainhas eram um encanto a parte.

Se alguém adoecia, lá encontrava Cibalena, Leite de Magnésia e Melhoral  infantil.

O doce era garantido pelos confeitos arrumados nos vidros de balas que giravam ao gosto do cliente.

A diversidade dos produtos comercializados ia bem  mais além, o estoque era imprevisível, formado por produtos vendidos por caixeiros viajantes, por pequenos produtores e pela necessidade de quem precisasse vender algum objeto para fazer a feira ou para ir tentar a vida em São Paulo fugindo da seca.

O principal diferencial na venda, além da presença constate de amigos como compadre José Bezerra,  seu João Félix e alguns outros, que no final da tarde se reuniam na calçada para contar causos e reviver antigas histórias, era o olhar caridoso que fazia com que comprasse o que não precisava  para proporcionar ao outro a oportunidade de adquirir o que estava necessitando, ou o compromisso que assumia em manter a família dos que saiam para trabalhar em outras terras, durante o tempo necessário para que o viajante pudesse arrumar um emprego e enviar dinheiro para pagar o débito, ou ainda quando os quartos de depósito eram usados para abrigar famílias inteiras que fugindo da seca pernoitavam e depois de alimentadas partiam ao nascer do Sol.

Márcia Maria Machado Nunes

Recife, 16 de agosto de 2026

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