A venda de vovô Zé Lúcio
Na venda que ficava na esquina
da rua 5 de julho, mais conhecida por rua nova, a dureza do chumbo granulado
usado para carregar espingardas soca-tempero, convivia lado a lado com a
maleável cera de abelha que ficava amaciada ao toque das mãos.
Às sextas-feiras, véspera da
feira, O açúcar e o arroz eram pesados, divididos em 1 kg ou 1/2 kg e embalados
em sacolas de papel de embrulho.
O sabão era medido
cuidadosamente e cortado de acordo com a necessidade de cada freguês, este
queria uma barra, aquele meia barra e o outro por sua vez metade de meia barra.
O sal, o colorau e o tempero
já vinham embalados em pequenos sacos plásticos.
Os parafusos, pregos e roscas,
ficavam organizados de acordo com o tamanho.
As facas peixeiras eram
arrumadas de acordo com o comprimento, e o preço variava de acordo com as
polegadas que iam de 5 a 10. As bainhas eram um encanto a parte.
Se alguém adoecia, lá
encontrava Cibalena, Leite de Magnésia e Melhoral infantil.
O doce era garantido pelos
confeitos arrumados nos vidros de balas que giravam ao gosto do cliente.
A diversidade dos produtos
comercializados ia bem mais além, o
estoque era imprevisível, formado por produtos vendidos por caixeiros
viajantes, por pequenos produtores e pela necessidade de quem precisasse vender
algum objeto para fazer a feira ou para ir tentar a vida em São Paulo fugindo
da seca.
O principal diferencial na
venda, além da presença constate de amigos como compadre José Bezerra, seu João Félix e alguns outros, que no final
da tarde se reuniam na calçada para contar causos e reviver antigas histórias,
era o olhar caridoso que fazia com que comprasse o que não precisava para proporcionar ao outro a oportunidade de
adquirir o que estava necessitando, ou o compromisso que assumia em manter a
família dos que saiam para trabalhar em outras terras, durante o tempo
necessário para que o viajante pudesse arrumar um emprego e enviar dinheiro
para pagar o débito, ou ainda quando os quartos de depósito eram usados para
abrigar famílias inteiras que fugindo da seca pernoitavam e depois de
alimentadas partiam ao nascer do Sol.
Márcia Maria Machado Nunes
Recife, 16 de agosto de 2026
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