terça-feira, 21 de julho de 2026

A DECADENCIA

 

A DECADENCIA

CRONOLOGIA OFICIAL DA MINHA DECADÊNCIA                                     (Relatório não solicitado do meu próprio corpo)

1. O CHÃO NÃO ME QUER MAIS

Descobri que o chão não é mais lugar neutro. Ele me observa. Sento com cuidado, como quem entra em território hostil. O erro não está em sentar — está em acreditar que levantar será simples.

Quando sento no chão hoje, meu corpo não relaxa. Ele calcula. Avalia rotas de fuga. O joelho consulta a coluna, a coluna ignora o pedido e o braço se oferece como apoio mesmo sabendo que não aguenta.

Levantar virou espetáculo constrangedor. Não é um movimento, é uma sequência de tentativas. Em algum momento faço força demais, em outro faço força nenhuma. O barulho que sai não é dor: é protesto mecânico.

Quando finalmente fico de pé, não comemoro. Fico parado, esperando o mundo voltar. A dignidade não voltou, mas o equilíbrio, às vezes, sim.

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2. LEVANTAR RÁPIDO É COISA DE JOVEM IMPRUDENTE

Existe uma idade em que levantar rápido deixa de ser virtude e passa a ser afronta. Eu levanto e a pressão fica sentada. O cérebro chega depois, ofegante, perguntando o que aconteceu.

Por alguns segundos, tudo escurece. Não é desmaio, é negociação. O corpo segura a consciência pelo colarinho e diz: “Fica quieto aí que eu resolvo”.

Aprendi a levantar devagar não por prudência, mas por sobrevivência. Hoje, quando alguém me chama com urgência, respondo com calma. Se for importante mesmo, espera.

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3. COMER É UMA ATIVIDADE DE ALTO RISCO

Eu não me sujo. A comida me ataca. Arroz pula, feijão escapa, molho escolhe a camisa clara como alvo preferencial. O guardanapo é figurante — existe apenas para manter a esperança.

Já tentei comer com cuidado. Não adiantou. A colher treme, o garfo trai, e a gravidade faz o resto. Elegância hoje é sair da mesa sem precisar explicar a roupa.

Aprendi que quem come limpo depois dos sessenta está mentindo ou passou fome.

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4. A BRAGUILHA COMO MANIFESTO POLÍTICO

Eu fecho a braguilha. Confiro. Saio confiante. Ela abre. Sozinha. Por ideologia.

Só percebo quando alguém olha rápido demais ou quando ninguém olha — o que confirma que já não há perigo social. A braguilha aberta não é descuido: é declaração silenciosa de aposentadoria simbólica.

Hoje, confiro menos. Se ninguém reclamar, é porque não importa mais.

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5. O BANHEIRO COMO UNIDADE DE MEDIDA

Antes de sair, pergunto se tem banheiro. Não por curiosidade, mas por logística. A vida passou a ser medida em distância até o vaso mais próximo. O idoso experiente sabe: Nunca negligencie a proximidade de um banheiro!

“Depois eu vou” virou frase proibida. O corpo avisa em cima da hora e cobra juros. Aprendi que fé ajuda, mas encanamento ajuda mais.

Saio menos. Não por preguiça, mas por planejamento hidráulico.

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6. O DIA EM QUE PAREI DE CONFIAR EM MIM MESMO

Flatulência é um teste moral. Todo peido vem acompanhado de dúvida. O problema não é o som, é o rodapé.

Já confiei demais. Já perdi. O idoso experiente sabe: nunca confie plenamente no próprio esfíncter. Prudência, nessa idade, é sinal de sabedoria e cueca seca. E a vida pune a soberba com rapidez e umidade.

Hoje, sento com cautela, levanto com dignidade possível e nunca aposto alto em gases.

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7. A EREÇÃO INÚTIL

Quando aparece, não serve. Quando serve, não aparece. A ereção virou evento fora de pauta.

Surge em momentos impróprios, sem futuro, sem plateia. Some quando é necessária, como funcionário público em véspera de feriado.

Desperdiço ereções como quem perde ônibus: sempre fora do horário e sem possibilidade de retorno. O corpo diz “quero”, mas não diz quando, nem pra quê.

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8. RIR É O QUE SOBROU

O corpo falha diariamente. A dignidade acompanha. O que sobra é o riso — ácido, indecente, necessário.

Rir não cura, não levanta do chão e não fecha a braguilha. Mas ajuda a atravessar o dia sem pedir desculpa por existir.

Enquanto eu rir disso tudo, ainda sou eu que conto a história. Depois, alguém conta por mim — e aí perde a graça.

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9. A QUEDA NÃO FOI A PIOR PARTE

Cair não dói tanto quanto perceber que todo mundo viu. O chão não me derrubou: eu cheguei até ele por excesso de confiança.

O corpo não avisa. Ele simplesmente desliga uma função aleatória e observa o resultado. Quando me dei conta, já estava no chão, tentando levantar rápido — erro clássico, agravante de pena.

O pior da queda não é a dor, é a plateia. Pessoas surgem do nada oferecendo ajuda, cadeira, água e perguntas inúteis. “Foi tontura?” Não. Foi idade.

Levantei fingindo dignidade. Caminhei mancando com orgulho. Em casa, mancando com verdade.

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10. EU OUÇO, MAS PREFIRO NÃO

A audição não falha de vez. Ela escolhe. Escuto cochicho irrelevante do outro lado da sala, mas não entendo quem fala comigo de frente.

Peço para repetir. Repetem. Não entendo. Sorrio e concordo. Já aceitei convites que nunca aconteceram e discordei de elogios sinceros.

O problema não é ouvir pouco — é ouvir errado. O constrangimento vem sempre depois.

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11. O ESQUECIMENTO SELETIVO É UM TALENTO

Não esqueço tudo. Esqueço o que não importa… e algumas coisas que importam muito.

Lembro perfeitamente de uma discussão de 1987, mas esqueço onde coloquei a chave há cinco minutos. Nomes somem, rostos permanecem, compromissos evaporam.

Dizem que é normal. Normal pra quem não marcou consulta achando que era amanhã. Era ontem.

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12. O MÉDICO SEMPRE SABE MAIS DO QUE EU GOSTARIA

O médico me chama pelo primeiro nome e olha meus exames como quem lê um romance policial. Faz silêncio. Esse silêncio custa caro.

“Na sua idade…” começa sempre assim. Nunca termina bem. Tudo é compatível com a idade — menos minha expectativa.

Saio do consultório com mais perguntas, menos certezas e uma lista de recomendações que não seguirei à risca.

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13. EXAMES: A HUMILHAÇÃO ORGANIZADA

Nenhum exame respeita a dignidade humana. Todos exigem jejum, despir-se ou posições incompatíveis com o amor-próprio.

O pior não é o exame — é o resultado “para levar ao médico”. Não dizem nada, mas dizem tudo.

Aprendi que quem pede exame não quer saber se você está bem. Quer saber o quanto não está.

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14. REMÉDIOS: MEU CAFÉ DA MANHÃ

Tomo remédios em horários diferentes para coisas que não lembro direito. Uns para acordar, outros para dormir, alguns para compensar os primeiros.

Levo os comprimidos numa caixinha organizada. Se misturar, vira roleta química.

Já não sei se estou vivo por mérito próprio ou por adesão farmacológica. Mas sigo — controlado, monitorado e levemente sonolento.

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15. O DIA EM QUE VIREI PACIENTE

Antes eu era pessoa. Agora sou “caso”. Tenho histórico, protocolo e acompanhamento.

As pessoas perguntam como estou. Respondo “estável”, como se fosse eletrodoméstico.

Vivo bem, dentro do possível. E o possível, hoje, é menos ambicioso — e muito mais engraçado.

Luiz Carlos Marzano

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