segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CONTERRÂNEAS HISTÓRICAS - Dona Luizinha


Barra (AL), 10 de outubro de 2011


Luiza Villar de Mendonça, este é o nome de registro da minha mãe que nasceu no dia 10.10.10 e faleceu no dia 21.04.2000. Mamãe nasceu no Sítio Buenos Aires, exatamente a 101 anos, onde conviveu a sua mocidade e devido a queima do Vapor de Algodão do seu tio José Florentino Villar, vulgarmente conhecido como Zeca Beiêr (veja matéria no dia19/05/2011 com o título AS IGREJAS DE MATA GRANDE Igreja do Sítio Buenos Ayres) teve que ir morar na cidade. Ainda muito jovem, moça muito bonita com feições brejeiras, logo despertou o interesse e casou com o meu pai Balbino Alves Bezerras e juntos tiveram treze filhos dos quais somente sete permanecem vivos; pela ordem de nascimento: Faustino, Guilherme, Hildebrando, Germano, Helena, Valderez e Valdeci.

Após 22 anos de plena felicidade houve a separação de fato do casal e mamãe passou a ser a nossa única orientadora. À custa de muitos sacrifícios e ajuda dos seus irmãos, e também do meu pai, conseguiu educar a todos.

Não possuía si quer o primário, todavia, tinha uma experiência de vida, invejável a qualquer cidadão. Dava-nos aulas, ensinamentos de bom viver, educação de bom comportamento, tanto em casa como na escola e também para a boa convivência com a sociedade matagrandense . Estes ensinamentos ainda hoje servem para a nossa cidadania, os quais procuramos transmitir aos nossos descendentes.

À guisa de informação, vou relatar um caso:

Guilherme desde 1954 foi estudar em Satuba, depois em Barbacena-MG., e de lá foi para São Paulo, somente reaparecendo em 1967 quando casei.
Rapaz fidalgo, educado, já com os costumes paulistanos, conversando com Mamãe acendeu um cigarro. Prontamente, ela deixou de conversar.
Percebendo, ele perguntou:
- É por causa do cigarro? Ela então respondeu:
“Se Deus tivesse criado o homem para fumar, tinha feito ele com uma chaminé na cabeça”
O meu irmão jogou o cigarro fora e nunca mais acendeu um cigarro na vista dela.

Esta e outras histórias nos serviam de lição e aprendizado de vida e assim todos começaram a vida profissional, trabalhando com esmero e dedicação o que a deixava bastante orgulhosa em ter conseguido um dos seus principais objetivos, dar também educação escolar.

Não costumava tomar remédios e tampouco refrigerantes, tinha uma saúde invejável. Todas as manhãs tomava um banho com água fria, não se importava se fosse na época invernosa, quando os termômetros em Mata Grande costumam beirar os doze graus.
Ao completar 80 anos confessou: - Meu filho, a ladeira dos oitenta é muito pesada e justamente antes de completar os noventa faleceu, deixando uma enorme lacuna.

Mamãe costumava dizer que nunca encontrou um vizinho ruim e para comprovar leia o que escreveu o poeta Walter Medeiros, que deixou Mata Grande por volta de 1962, retornando para Natal-Rn., local onde se formou e ainda hoje reside, quando soube da sua partida para junto de Deus.




DONA LUIZINHA (Walter Medeiros)

Se eu voltar a Mata Grande,
Não verei Dona Luizinha;
Disseram que ela morreu.
Dona Luizinha, a vizinha.
Mais amiga e amável
Que esta vida nos deu.

Eu ainda a vi, velhinha,
Lembrando os belos tempos
Em que eu era vizinho seu.
Não por mim, por minha mãe,
A sua grande amiga,
Que também está com Deus.

Ela lembrava dos dias
Que a cidade começou
E que à noite era um breu.
Em meio às pedras da serra
Onde a cidade se encerra
Onde achou água e bebeu.

Depois, um dia, fazia,
Aquele pão com manteiga
Que a gente nunca esqueceu.
Se eu voltar a Mata Grande,
Não verei Dona Luizinha,
Nem pra lhe dizer adeus.